A evolução das relações entre fãs e ídolos

Eu sempre falo brincando (com requintes de verdade) que o Brasil carece de ídolos desde a morte de Ayrton Senna. Nossa relação com celebridades era completamente diferente nos anos pré-internet, pois veja: não havia internet, e tínhamos que esperar os meios tradicionais de comunicação trazerem as notícias sobre os famosos que admirávamos. Fazíamos recortes de revistas para colar em cadernos, esperávamos por notícias na MTV. Enfim, tínhamos uma imaginação fértil sobre como era o banheiro da mansão do fulano ou o que ele fazia no dia a dia.

Com a internet, sabemos – até demais – sobre essas pessoas, mas, não só isso, surgiu um novo espécime de ídolo. São pessoas que começaram se expressando em blogs e acabaram por criar uma fanbase. O seu estilo de vida, suas ideias, seus posicionamentos, até seus gostos pessoais se tornaram referências e os transformaram em heróis da geração mais nova, esta que nasceu com um tablet no berço.

A diferença dessas novas celebridades para os nossos dos anos 1990 é esse tom de amizade que carregam em suas fotos nas redes sociais. Para nós, criados com a televisão, era inviável saber dos artistas de que gostávamos. Tínhamos que esperar a quinzena pra comprar a revista em que vinha duas páginas de curiosidades do tipo “fulano come pão com manteiga na chapa de café da manhã”. Hoje você tem a foto do pão, do almoço e da janta postado pelo próprio fulano. A mudança drástica, no entanto, não foi o jeito que consumimos nossos ídolos: é como surgiram ídolos da internet em si.

Imagem: @luizagil_/Instagram

Lembram dos diários virtuais? Foi o auge da criação independente de conteúdo dos anos 2000. Bom, não eram conteúdos cultos, mas eram sinceros, do coração. Eu desisti de manter blog pessoal depois de quatro anos, como muitos, e poucos continuaram nessa rotina, ao mesmo tempo em que trabalhavam nos seus empregos formais. Ali por 2008 as marcas começaram a enxergar potencial nesses blogs caseiros e injetaram dinheiro nessas pessoas reais, que já tinham um público consolidado: o leitor. O que era um hobby se tornou um negócio rentável. Tanto que muitos blogs hoje têm CNPJ e marca registrada, sem contar nos produtos licenciados.

Mas como essas pessoas da internet possuem tantos fãs quanto alguém dos Rolling Stones? Há blogueiras de moda que hoje desfilam para marcas internacionais de luxo, como Gucci e Dolce&Gabbana. Há youtubers que têm mais audiência que programas da televisão. São pessoas de 15 a 25 anos que produzem conteúdos de casa, alguns com equipamentos de última geração ou com uma pequena equipe.

Com a internet sendo mais acessível, descobrimos que a vida existe além da televisão. Existe vida além do Faustão nos domingos. Aliás, o que são as cassetadas se agora podemos pesquisar no YouTube vídeos realmente engraçados? E não só podemos agora consumir o que queremos, como também produzimos conteúdo para os demais. A televisão, enquanto isso, ficou na zona de conforto, pensando que, por ter dinheiro, conseguiria manter os telespectadores. Foi assim que tudo desandou na televisão: a internet fornece o que queremos ver.

Sobre as novas celebridades, passamos a buscar identificação com aquele de dentro da tela. Como mencionado, buscamos ver gente como a gente. Não queremos mais riquezas ou invejar a vida rica dos outros. Queremos referências reais. A internet não só possibilita isso, como faz a gente se sentir íntimo dessas pessoas. Imagina só, nós enviávamos cartas para os artistas de que gostávamos. Cartas. Hoje podemos mandar mensagem direta para o ídolo e, muitas vezes, somos respondidos. Aquele quentinho no coração por ter sido respondido pelo fulano de tal que tanto amamos.

É por isso que os ídolos da internet estão em alta: são reais. São acessíveis. Para nós, dos anos 1990, torcemos o nariz para essas celebridades teens. Eu era assim, achava um desserviço os vídeos que esse povo fazia. Mas pensei no meu eu de 13 anos, em como ela seria sortuda se pudesse mandar uma mensagem pro ídolo em um só clique.

 

E você? Já conversou com o seu ídolo, hoje?

 

Imagem em destaque: @frannerd (Instagram)/Reprodução

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *